Continuar falhando – um ensaio sobre uma pessoa não excepcional
(Texto de amigo que conheci
por acaso, em uma festa de outro amigo que, também conheci por acaso).
Responda: a capa da revista ganhou
cem milhões no último mês ou nunca conseguiu uma conquista expressiva? Nós (e
quando eu digo nós, quero dizer os jovens, de até 22 anos, mais precisamente) nascemos
na incrível geração do “na minha época não tínhamos tantas oportunidades” e
surge uma obrigação informal de você agarrar todas as oportunidades que você
enxerga na frente, por dois motivos: Mostrar que você realmente é capaz de ser
o jovem prodígio da sua geração ou simplesmente a obrigação formal de obedecer
tudo (ou quase tudo) que nos é imposto.
Aos 17, achava que sabia o que queria,
começou um curso cool: “oh, ele faz gastronomia, meu filho vai ser um grande
chef!” pensava a mãe, toda feliz. No final daquele mesmo ano, depois de tanto
sofrer em frente a fogões e trabalho árduo dentro de cozinhas, o moleque
desiste e pensa: vou pra vida boa, que tal fazer Administração? – Sempre soube
que era isso que você queria filho, o mesmo curso que sua mãe!
Espero que você
seja um ótimo administrador. Nessa altura do campeonato, a mãe já respira ares
de incerteza, percebendo que os sonhos de seu filho somem mais rápido que as
estrelas cadentes (as quais, sempre que ela vê, anseia por conquistas do
pequeno) e ao mesmo tempo, mais frágeis que um simples pudim de leite. Mas que
porra, esse guri não sabe o que quer da vida? É cozinha, é Florianópolis, e
agora ele me vem com um papo de navio? Ele já cancelou um intercâmbio, já
trancou as aulas de teclado e de violão, será que teremos aqui, mais um: fez de
tudo e nunca foi bom em nada? Olha mãe, esse é seu filho, um cara que não é
muito excepcional, na verdade...
Talvez nada excepcional. Ele só quebra a cara,
dá murro em ponta de faca, e sempre que ele acha que vai começar a fazer alguma
coisa com maestria, perde o tesão. Lá vai ele, pra mais uma mudança, rumo a
novos ares, provavelmente com a certeza de que não vai dar certo – one more
time – mas o importante mesmo é tentar, não é? NÃO. O IMPORTANTE É CONSEGUIR, E
VOCÊ SABE BEM DISSO.
Tudo o que eu queria era não te decepcionar, mas parece
que pra cada passo que você me vê dando pra frente, na verdade eu estou dando
dois pra trás, e sem conseguir te contar a verdade, vou levando, e levando, e
levando, e levando. Mais do que te decepcionar, ele se decepciona, ele foi
criado para ser a criança prodígio, teve os mimos de uma família toda torta
(pai pra lá, mãe pra cá, padrasto pra lá, madrasta pra cá) e mesmo assim nunca
quis muitos deles, sempre era a ovelha negra entre os primos, o único que
respondia rispidamente para suas tias, a temida pergunta: e as namoradinhas?
Assim, passaram-se os anos, o pequeno que acreditava ter sido criado pra ser um
CEO, vai ser o mais novo auxiliar de estoque do mês, bom, ao menos alguém o
contratou, não é mesmo?
Agora me ouça...
É como dizia o poeta: "Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser
mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra
quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu".
Eu realmente não sou a pessoa mais indicada para julgar tua vida,
pois minha vida tem um pouco da tua. Já quis ser tanta coisa que até hoje não
consigo lembrar de todas elas. Já mudei de cidade duas vezes, de colégio umas
quatro, de faculdade pude ter mudado duas vezes, e de curso também. Nunca levei
mérito em nenhuma das matérias na escola. Acho que eu havia estabelecido um
padrão, onde eu não era genial e nem péssima. Mas sabe, nesse trajeto encontrei
tanta gente legal, tanta gente infeliz, tanta gente cheia de si, tanta gente
extraordinária...
Poderia ter sido diferente? Talvez! Se eu tivesse me doado mais às
aulas de matemática poderia estar cursando alguma engenharia. Poderia também tido
mais paciência nas aulas de português, de inglês ou artes. Eu poderia ter me
dedicado muito mais? Com certeza!
Mas aí eu não estaria sendo eu, estaria seguindo os passos de
outros amigos, membros da família que obtiveram um coeficiente sempre maior que
o meu no colégio. E, assim como eles, estaria casando, tendo filhos, e ficaria
presa naquilo ali, me contentando com aquele salário, comprando pães na padaria
após o expediente, dormindo no mesmo horário todos os dias porque no outro dia
uma rotina morna estaria me acordando.
Não importa o que estaremos fazendo da vida, nunca será o suficiente.
Nosso corpo respira desafios, novas conquistas, novas aventuras, novas
experiências e novos motivos para que a chama da satisfação continue acesa. E assim vai ser. A quem estamos tentando enganar?
Não se culpe por não ter sido o que tua mãe achava que você seria. O
processo é longo e você mal saiu de casa. Não espere que as coisas acabem por aqui, pois estão só começando. Acredito que nada acontece à toa e que lá na
frente todos os pontos se ligarão. Que graça teria começar algo e ter a certeza
de que tudo vai andar como o planejado?
Aí algum ser distinto te encontra no bar e numa dessas trocas de
ideias pergunta sobre a tua história e você responde: “Terminei o ensino
médio, fui pra faculdade, onde em 4 anos me formei, conheci uma pessoa
legal com a qual resolvi me casar, tivemos 3 filhos e pronto! Estou só
esperando envelhecer, vê-los crescer para que sigam o mesmo ciclo.” Motivador, não?! Não neste momento!
E o mais importante: pare de achar que você não é nada
excepcional, pois você é! Excepcionalidade não tem a ver com o que você tem
conquistado, mas sim do que você é e de como age diante dos acontecimentos. Conheço
tanta gente que adquiriu riquezas, porém, dentro de si só existe futilidade e
pobreza.
Você pode e deve ter defeitos, viver
confuso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueça de que a tua vida é a maior
empresa do mundo. E que podes evitar que ela vá à falência. Ser feliz é
reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e
períodos de crise.
A gente sente quando é pra ser. A gente consegue quando é pra ser. Caso contrário, é aprendizado.
Então...siga reto e boa sorte!
Agradeço o compartilhamento e espero ter ajudado!
Agradeço o compartilhamento e espero ter ajudado!
Com carinho,
Maria.
