sexta-feira, 4 de setembro de 2015






Continuar falhando – um ensaio sobre uma pessoa não excepcional



(Texto de amigo que conheci por acaso, em uma festa de outro amigo que, também conheci por acaso).


Responda: a capa da revista ganhou cem milhões no último mês ou nunca conseguiu uma conquista expressiva? Nós (e quando eu digo nós, quero dizer os jovens, de até 22 anos, mais precisamente) nascemos na incrível geração do “na minha época não tínhamos tantas oportunidades” e surge uma obrigação informal de você agarrar todas as oportunidades que você enxerga na frente, por dois motivos: Mostrar que você realmente é capaz de ser o jovem prodígio da sua geração ou simplesmente a obrigação formal de obedecer tudo (ou quase tudo) que nos é imposto.

 Aos 17, achava que sabia o que queria, começou um curso cool: “oh, ele faz gastronomia, meu filho vai ser um grande chef!” pensava a mãe, toda feliz. No final daquele mesmo ano, depois de tanto sofrer em frente a fogões e trabalho árduo dentro de cozinhas, o moleque desiste e pensa: vou pra vida boa, que tal fazer Administração? – Sempre soube que era isso que você queria filho, o mesmo curso que sua mãe! 

Espero que você seja um ótimo administrador. Nessa altura do campeonato, a mãe já respira ares de incerteza, percebendo que os sonhos de seu filho somem mais rápido que as estrelas cadentes (as quais, sempre que ela vê, anseia por conquistas do pequeno) e ao mesmo tempo, mais frágeis que um simples pudim de leite. Mas que porra, esse guri não sabe o que quer da vida? É cozinha, é Florianópolis, e agora ele me vem com um papo de navio? Ele já cancelou um intercâmbio, já trancou as aulas de teclado e de violão, será que teremos aqui, mais um: fez de tudo e nunca foi bom em nada? Olha mãe, esse é seu filho, um cara que não é muito excepcional, na verdade... 

Talvez nada excepcional. Ele só quebra a cara, dá murro em ponta de faca, e sempre que ele acha que vai começar a fazer alguma coisa com maestria, perde o tesão. Lá vai ele, pra mais uma mudança, rumo a novos ares, provavelmente com a certeza de que não vai dar certo – one more time – mas o importante mesmo é tentar, não é? NÃO. O IMPORTANTE É CONSEGUIR, E VOCÊ SABE BEM DISSO. 

Tudo o que eu queria era não te decepcionar, mas parece que pra cada passo que você me vê dando pra frente, na verdade eu estou dando dois pra trás, e sem conseguir te contar a verdade, vou levando, e levando, e levando, e levando. Mais do que te decepcionar, ele se decepciona, ele foi criado para ser a criança prodígio, teve os mimos de uma família toda torta (pai pra lá, mãe pra cá, padrasto pra lá, madrasta pra cá) e mesmo assim nunca quis muitos deles, sempre era a ovelha negra entre os primos, o único que respondia rispidamente para suas tias, a temida pergunta: e as namoradinhas? 

Assim, passaram-se os anos, o pequeno que acreditava ter sido criado pra ser um CEO, vai ser o mais novo auxiliar de estoque do mês, bom, ao menos alguém o contratou, não é mesmo?





Agora me ouça...


       É como dizia o poeta: "Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu".

        Eu realmente não sou a pessoa mais indicada para julgar tua vida, pois minha vida tem um pouco da tua. Já quis ser tanta coisa que até hoje não consigo lembrar de todas elas. Já mudei de cidade duas vezes, de colégio umas quatro, de faculdade pude ter mudado duas vezes, e de curso também. Nunca levei mérito em nenhuma das matérias na escola. Acho que eu havia estabelecido um padrão, onde eu não era genial e nem péssima. Mas sabe, nesse trajeto encontrei tanta gente legal, tanta gente infeliz, tanta gente cheia de si, tanta gente extraordinária...

       Poderia ter sido diferente? Talvez! Se eu tivesse me doado mais às aulas de matemática poderia estar cursando alguma engenharia. Poderia também tido mais paciência nas aulas de português, de inglês ou artes. Eu poderia ter me dedicado muito mais? Com certeza!
Mas aí eu não estaria sendo eu, estaria seguindo os passos de outros amigos, membros da família que obtiveram um coeficiente sempre maior que o meu no colégio. E, assim como eles, estaria casando, tendo filhos, e ficaria presa naquilo ali, me contentando com aquele salário, comprando pães na padaria após o expediente, dormindo no mesmo horário todos os dias porque no outro dia uma rotina morna estaria me acordando.

       Não importa o que estaremos fazendo da vida, nunca será o suficiente. Nosso corpo respira desafios, novas conquistas, novas aventuras, novas experiências e novos motivos para que a chama da satisfação continue acesa. E assim vai ser. A quem estamos tentando enganar?

       Não se culpe por não ter sido o que tua mãe achava que você seria. O processo é longo e você mal saiu de casa. Não espere que as coisas acabem por aqui, pois estão só começando. Acredito que nada acontece à toa e que lá na frente todos os pontos se ligarão. Que graça teria começar algo e ter a certeza de que tudo vai andar como o planejado?

      Aí algum ser distinto te encontra no bar e numa dessas trocas de ideias pergunta sobre a tua história e você responde: “Terminei o ensino médio, fui pra faculdade, onde em 4 anos me formei, conheci uma pessoa legal com a qual resolvi me casar, tivemos 3 filhos e pronto! Estou só esperando envelhecer, vê-los crescer para que sigam o mesmo ciclo.” Motivador, não?! Não neste momento!

        E o mais importante: pare de achar que você não é nada excepcional, pois você é! Excepcionalidade não tem a ver com o que você tem conquistado, mas sim do que você é e de como age diante dos acontecimentos. Conheço tanta gente que adquiriu riquezas, porém, dentro de si só existe futilidade e pobreza.

        Você pode e deve ter defeitos, viver confuso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueça de que a tua vida é a maior empresa do mundo. E que podes evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. 

A gente sente quando é pra ser. A gente consegue quando é pra ser. Caso contrário, é aprendizado. 
Então...siga reto e boa sorte!

Agradeço o compartilhamento e espero ter ajudado!

Com carinho,

Maria.

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